setembro 10, 2009

Vendo a História como Braudel

Nem sempre a História foi vista e escrita da maneira que é feita hoje. Depois do século XIX com um dialógo entre históriadores e as ciências sociais o tempo da História não era mais teleológico, ou seja, o fim da História não explicaria mais a sucessão dos eventos. O homem passsaria a ser não só sujeito, mas resultado e objeto da História.
Na Escola dos Annales Fernand Braudel mostra agora não mais aquele tempo linear mas a estrutura de uma realidade de longa duração




M. Ouriques




A formulação da concepção de tempo elaborada por Braudel, co-fundador da Nouvelle Historie, o mostra como continuador das idéias de Bloch e Febvre bem como um elo com as correntes posteriores: a história estrutural, que trata do tempo quase inerte das estruturas econômica, social, demográfica, geográfica e mental; a história serial, que enfoca especialmente os ciclos da estrutura econômica; e finalmente a história acontecimental, que se ligam mais a história política e intelectual. Nota-se que entre as três correntes a idéia de uma perspectiva de longa duração é comum, porém a idéia da relação entre evento e estrutura é diferente em cada uma delas.
Aderindo mais ao ponto de vista das ciências sociais, Braudel caracteriza-se com Bloch na concepção de tempo histórico, mantendo o sentido da mudança e pensando o tempo histórico de maneira estrutural.
Braudel combate o estruturalismo, que mostrava relações estruturais intemporais, tornando-o mais flexível como afirma Breisach. A resposta á este estruturalismo é dado por Braudel em 1969, onde também combate as estratégias das ciências sociais para evitar o tempo histórico.
Braudel vai demonstrar interesse por um tempo mais estruturado, não acontecimental. Ele irá concordar com Gurvitch, seu interlocutor á sociologia empírica, quando este diz que a sociedade possui níveis e durações diferentes; porém discorda quanto seu interesse à superfície, ao atual. Braudel logo irá descartar o debate com Gurvitch para voltar-se ao estruturalismo de Lévi-Strauss.
Strauss aposta em estruturas, do inconsciente, do modelo e as sincronia. Braudel já acredita que nenhum tempo social pode escapar ao tempo histórico, ao contrário seria abstração.
A distância mostrada por Levi-Strauss e os historiadores é a que este vê no homem um eterno objeto, ultrapassando a “superfície de observação” para alcançar o inconsciente. Sociólogos e antropólogos tentam escapar do tempo histórico, que Braudel considera inescapável. E o historiador não irá escapar deste tempo histórico, tempo múltiplo, diferenciado, dialético.
A dialética da duração supera o evento e aborda de frente a história; esta concepção de tempo histórico foi elaborada por Braudel sob a influência das ciências sociais, ele não ia negar o tempo curto, mas o relacionará com parcelas mais duradouras do tempo. Ou seja, todo contexto econômico, social, das civilizações que a história tradicional tratava como secundária, será para Braudel muito mais relevante, estabelecendo uma relação dialética entre continuidade e descontinuidade.A principal mudança realizada pelos Annales foi, portanto a descoberta do tempo longo sob a mudança. Em Braudel existirá a dialética da duração com realidades estruturais, conjunturais e acontecimentais que se constituem de maneira recíproca. O tempo curto para Braudel seria o do evento (econômico, social, mental), o tempo histórico seria dividido em partes maiores: estruturas, ciclos e interciclos. Para o autor é uma mudança de muita importância admitir a longa duração do tempo histórico.
Braudel também vai dialogar com o tempo econômico que é, sobretudo cíclico, conjuntural, que supera o evento, porém não alcança o tempo longo. Mas W. Kula acredita que os economistas tendem para longa duração.
Antes da publicação do artigo de Braudel, a obra de G. Imbert analisa os ciclos econômicos, estas análises têm como objetivo “manter a estabilidade dos níveis de preços e o pleno emprego”. Os movimentos econômicos mostram durações diferentes: o trend secular, interciclos e ciclos. Estas movimentações para os economistas são conseqüências das inovações.
Esta percepção do tempo histórico da economia não alcançaria o tempo longo estrutural (superior a 60-70 anos) conforme afirma Braudel.
Esta novidade da compreensão do tempo histórico mostra-se clara para o historiador que compreende a estrutura não como algo imutável, mas como algo que abarque a totalidade.
Seria esta a síntese de Braudel: inserir o evento, a conjuntura e a estrutura. Em sua dialética Braudel bebe das fontes de Febvre e Bloch e ao mesmo tempo os nega: se opõem e se inspira.
Concebendo o tempo histórico em Braudel em suas obras nota-se níveis à serem analisados: o temo real, passado e presente, tempo reconstruído e a visão mais ampla da história do autor. Seriam, portanto dois tempos principais: o da realidade concreta e a do historiador e para este há a dimensão que envolve o autor como um personagem inserido em um cenário político e outra dimensão mais particular onde insere o pesquisador enquanto cientista.
Na obra “La Mediterranée et Le monde mediterranéen à l’époque de Phillipe II” de Braudel, especialistas vêem o tempo histórico encontrando seu espaço, que o autor da obra chama de mundo mediterrâneo.
Para tanto constrói um espaço geográfico - que é heterogêneo - em uma unidade onde submete a heterogeneidade à dualidade da região mediterrânea, utilizado também do método comparativo.
Já para construir as fronteiras históricas o autor analisa populações que se mostram tão diferentes, fronteiras culturais e secundárias, que segundo Braudel se ligam em um destino comum.
Na disputa deste mundo tão heterogêneo há uma grande luta expansionista, e estas diferenças são para o autor o que acentuam a obrigação da troca. Fica aqui clara a idéia de multiplicidade em sua concepção de tempo histórico: cada região autônoma convergiria ao ritmo da grande história. Braudel considera que encontrará uma unidade através da pesquisa empírica interdisciplinar.
do estereótipo.
Além de analisar a terra, Braudel também analisa o Mediterrâneo-mar, que era imenso no século XVI. Há uma descrição sob os condicionamentos do clima, onde no inverno havia uma desaceleração e no verão uma aceleração.O tempo histórico propriamente dito inicia com a análise dos ritmos da vida nas rotas terrestres e marítimas, sendo as cidades o ponto de partida para as rotas. Ainda neste primeiro livro, Braudel descreve o nomadismo e antecipa o tempo desacelerado, mas mais vivo da estrutura e da conjuntura. Porém ele irá afirmar que não serão estes espaços geográficos que fazem a história, mas os homens.
O segundo volume da obra está sob o signo das ciências sociais, ou seja, o homem em suas relações sócias e não com a natureza, tratando de economias, sociedades, Estados, civilizações e guerras, aparecendo agora a aceleração dos ritmos sociais. Fundamentalmente surge aqui o que é de interesse do historiador: a passagem do tempo histórico das sociedades. Sua medida da mudança é o que diferencia dos outros historiadores, há uma relação dialética entre aceleração e desaceleração, a permanência cederá espaço para a mudança.
Neste livro o espaço, descrito no primeiro volume, será tratado como uma extensão, sendo mais específicas aqui as delimitações específicas do século XVI, que trazem certos limites à potência humana: o espaço, a economia, o crescimento populacional, as civilizações, a guerra (entre espanhóis e turcos, entre cidades italianas, entre reinos europeus), as hierarquias sociais. Nestes contornos é onde estão as variações conjunturais. Este volume une explicação conjuntural à explicação estrutural. Para ele não era possível somente narrar, mas sim correlacionar as conjunturas.
Braudel utilizará as relações dos ritmos econômicos relacionadas com as conjunturas das outras estruturas, identificando um crescimento até 1600 e desacelerando posteriormente até tornar-se uma ruptura em 1650. Ele correlacionará os movimentos econômicos às conjunturas sociais e a esta tendência às conjunturas da guerra. E são estes os ritmos do segundo livro: estruturas e conjunturas econômicas, sociais, culturais, militares, demográficas e técnicas.
No prefácio do terceiro volume Braudel fala de evento como algo fadado ao esquecimento. Mas se pode também vê-lo como testemunha das passagens mais longas e profundas do tempo. Braudel parte das estruturas para o evento. A Nouvelle Historie mostra caminhos como o de Bloch que parte da estrutura para o evento e o de Febvre que parte do evento para a estrutura.
Este terceiro volume mostrará o viver das sociedades, o limite propriamente humano.
Braudel não teve a pretensão de reconstruir o mundo mediterrâneo de Filipe II, mas ao mesmo tempo que se manteve distante se aproximou deste mundo.
Pode-se sugerir que a Nouvelle Historie ao construir o tempo histórico estava com suas raízes no presente europeu e francês, onde Braudel, embebido num cenário de finitude e impotência, estava inserido.
Estaria Braudel buscando razões para derrota européia como centro da história no mundo mediterrâneo do século XVI. Porém foi durante o século XVII que o Mediterrâneo fora substituído pelo Atlântico, a Europa deixa de ser o centro da história, há uma mudança de eixo. O século anterior teria sido o último de glória para o velho continente.O autor mostrará sua nostalgia por uma Europa como centro do mundo, mas o crescimento da Europa Atlântica fez desenvolver o Atlântico não europeu. Percebe-se novos atores, outras perspectivas que este continente não teria levado em consideração.O quadro do tempo histórico criado por Braudel são de valores da história vencedora: imperialista, circulacionista, eurocêntrica, capitalista (no qual o autor é adepto), belicosa, megalomaníaca e reacionária.






REIS, José Carlos. A perspectiva de Braudel: dialética da duração. In: ____ Nouvelle Histoire e tempo histórico. São Paulo: Ática, 1994. p. 58-100.

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