julho 21, 2010

A ditadura brasileira e as relações com o governo dos EUA

O governo dos EUA apoiou o golpe militar de 1964 no Brasil montando uma grande operação chamada Brother Sam, que auxiliaria os militares brasileiros no caso de resistência por parte do governo de Goulart.
O grande medo por parte do governo dos EUA em ver o Brasil transformado em uma grande Cuba é ponto essencial para que se compreenda a intervenção do governo estadunidense no Brasil.
O livro "O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo." do historiador Carlos Fico, mostra toda trajetória de alinhamento dos EUA como Brasil durante os anos da ditadura brasileira.
M.Ouriques

A participação dos EUA durante a ditadura militar brasileira é tema central na obra O grande irmão: da operação brother Sam aos anos de chumbo, o governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira publicada em 2008 pelo historiador e professor da UFRJ, Carlos Fico.

Fico mostra a clara pretensão do Brasil em buscar vantagem com os EUA após a 2ª. Guerra Mundial. Julgando-se merecedor ao aliar-se com os EUA naquele período, onde inclusive concedeu bases militares no nordeste do país, o governo brasileiro teve que contentar-se com conselhos econômicos já que em função do Plano Marshall, os EUA voltavam suas atenções para Europa então arruinada pela guerra. Fica clara ainda a dependência de países latino-americanos para com os EUA no comprometimento da defesa do continente em troca do fornecimento de armamento estadunidense.

A imagem que os latino-americanos tinham dos EUA pôde ser percebida com a visita do vice-presidente Richard Nixon: hostilização e protestos marcaram sua vinda para estes países. Para que tal imagem fosse modificada a atitude dos EUA foi a de voltar-se para as questões sociais e econômicas.

Estes países nutriam simpatia pela revolução de Fidel e a implantação do socialismo em Cuba. O autor ainda lembra a tentativa frustrada e isolada por parte do governo dos EUA de tentar invadir Cuba em 1961, durante o governo Kennedy. Esta atitude conseguiu gerar ainda mais insatisfação por parte dos países latino-americanos. Porém três anos depois da tentativa de invasão, o governo estadunidense consegue fazer com que estes países descontentes rompessem relações diplomáticas com Cuba.

A questão com Cuba, bem como a má imagem dos EUA na América Latina, fez com que o governo estadunidense tomasse providências para melhorar sua reputação nestes países como o lançamento da Aliança para o Progresso, que segundo o autor delineava,acima de tudo uma forma de combate ao comunismo

O nordeste brasileiro foi alvo deste programa, não por acaso, pois o governo dos EUA temia que o movimento camponês da região tomasse corpo. A criação, pelo então candidato Kennedy, do peace corps, programa que enviaria jovens estadunidenses para prestar serviços no exterior também foi outra tentativa de intervir no Brasil, porém não foi um programa de grande vizilibilidade exatamente para evitar o surgimento de futuras críticas com relação à intervenção dos EUA em território brasileiro.

Após o assassinato de Kennedy em 1963, suas diretrizes de uma abordagem assistencialista e o controle sobre a América Latina pelo receio do surgimento de novas Cubas, ficaram de herança para seu sucessor Lyndon Johnson, que passou a governar como apoio da equipe de Kennedy. Johnson para não perder a boa impressão de seu antecessor nomeou Thomas Mann para cuidar das questões latino-americanas, para ele “a Aliança para o Progresso era útil, mas devia funcionar apenas como indutora do desenvolvimento, e não como sua principal fonte de financiamento”. (FICO, 2008, p. 35)

A maior crítica contra Johnson foi o não questionamento dos regimes que recebiam assistência dos EUA, bastando somente que fosse anticomunistas, esta idéia ficou conhecida como Doutrina Mann. Este tipo de acusação ao governo Johnson de não buscar mudar a opinião dos ditadores latino-americanos, fez com que o presidente fosse acusado de abandonar a idéias de Kennedy e de que estaria apoiando estas ditaduras.

Apesar das críticas, Johnson venceu as eleições e tomou posse em 1965. Neste período suas atenções voltavam-se para a Guerra do Vietnã e, o então presidente, passou a acreditar que os problemas da América Latina eram somente a ausência de uma boa infra-estrutura.

Com o passar do tempo o interesse dos EUA sobre o Brasil e da América Latina foram diminuindo. Porém o governo posterior, de Richard Nixon, continuou atendendo algumas demandas do Brasil, mesmo tendo abandonado a Aliança para o Progresso, assumindo muitas vezes métodos clandestinos como o golpe no Chile em 1973. Vale aqui ressaltar que a Aliança para o Progresso não obteve o sucesso desejado e a imagem dos EUA na América Latina estava ainda pior.

Carlos Fico atenta para o sentimento antiamericano entre brasileiros, que fez com que os auxílios recebidos dos EUA como o peace corps fossem muitas vezes ocultados por receio de uma resposta negativa da população.

Um relatório preparado pelos EUA concluiria que o governo do Brasil conseguiria manter o controle já que o antiamericanismo não seria tão agudo quanto se supunha. O estudo ficou concentrado no RJ, SP e outras capitais. O relatório também fazia alusão ao mal-estar gerado pela presença de empresas estadunidenses, do imperialismo e da exploração econômica em terras brasileiras. Porém os diplomatas do governo dos EUA buscavam reduzir esta má impressão no Brasil, sendo mais comum a ocultação da presença dos EUA no país.

O modelo de política externa que os EUA deveriam assumir, conforme seus formuladores eram de uma relação mais amistosa não expondo seus negócios internos.

O primeiro capítulo da obra focou mais na relação e na influência do governo dos EUA no Brasil como quem prepara o terreno para algo mais complexo, e o autor faz isso de forma bastante clara, convidando o leitor a ir além em sua leitura e reflexão.

Fico passa agora a discutir as disputas de memórias de João Goulart além de também a participação dos EUA no golpe de 1964.

Dentre estas disputas de memória, o que Carlos Fico mostra é que as referências positivas ao governo de Goulart, que assumiu o governo após a renúncia de Jânio Quadros, são bem reduzidas e de um modo mais geral são análises negativas que prevalecem com relação ao presidente brasileiro. A sua incompetência administrativa foi uma das principais críticas ao seu governo.

Com relação a construção da memória de Goulart é vital a sua atuação frente ao Ministério do Trabalho, sua atitude com relação ao esperado golpe também são frutos das disputas de memória. Aqui Fico contextualiza de maneira sintética e muito clara a não resistência de Goulart. O autor ainda levanta a hipótese de que o então presidente teria sido avisado que os EUA estavam apoiando os golpistas e que ainda mostravam-se “dispostos a reconhecer um governo alternativo ao dele, o que certamente teria pesado em sua decisão de não resistir”. Esta decisão de Goulart aumentou a sua imagem negativa e atribuiu-se a ele o fato do Brasil ter sido lançado à ditadura.

Mesmo com esta má impressão, Goulart foi um governante popular inclinado que era para discussões de cunho social como a reforma agrária e o analfabetismo por exemplo. “Ele foi deposto porque deu a impressão de fomentar conquistas populares demasiado amplas que, aos olhos de certos setores da elite, poderiam levar à radicalização da democracia”, mas Goulart também foi deposto pelo fato de “não ter sido capaz de estabelecer uma política militar satisfatória”. (FICO, 2008, p. 75)

Carlos Fico entra em uma discussão no mínimo interessante para um debate: sobre as diferenças ou proximidades, defendidas por René Dreifuss, entre a chamada campanha de destabilização de Goulart e a conspiração para tirá-lo do poder com o golpe. O autor acredita que talvez não houvesse a pretensão, ao menos inicial, dos autores deste processo de destabilização na conspiração que culminaria no golpe, que ainda segundo Fico só começou a ser preparada em 1963, além disso, a campanha de desestabilização teria sido feita em sua maioria por civis enquanto a conspiração do golpe teria sido engendrada por grupos militares. Os dois processos seriam para Fico, portanto, interligados, porém podem ser vistos de forma autônoma.

Vale ressaltar o artigo do professor Rodrigo Patto Sá Motta que mostra o papel cômico das caricaturas de João Goulart como uma arma política de desestabilização de seu governo. Para o autor “apresentar um líder em traços ridículos ante o público é uma forma de desacreditá-lo e desmoralizá-lo” (MOTTA, 2004, p. 37). O uso destas caricaturas serviria, portanto, para enfraquecer a imagem de Goulart frente à opinião pública brasileira.

Voltando a presença dos EUA no Brasil, o autor enfatiza que a intervenção ia além da propaganda ideológica, enfocando os costumes estadunidenses e a defesa do capitalismo, durante as eleições de 1962.

Após as eleições, Kennedy passou a pressionar ainda mais o governo Goulart. Exemplo da intervenção no país foi a chamada ilhas de sanidade, que seria o direcionamento de recursos para governos estaduais, esta estratégia serviria para que a verba em questão não caísse nas mãos de governantes de esquerda, contrários a descarada intervenção. Além desta intervenção mais direta, havia ainda iniciativas de doutrinação através, especialmente da imprensa, porém Fico lembra que nem toda propaganda é eficaz e que o público alvo nem sempre recebeu as informações passivamente.

Fico ainda trata dos planos de contingência do governo dos EUA, que buscavam “antecipar o desdobramento de uma dada situação” (FICO 2008, p. 87). Na ocasião, seria a postura a ser tomada diante de um possível golpe no governo de Goulart.

Após preparar todo o contexto necessário para que se pudesse chegar ao subtítulo da obra com o conhecimento mínimo da presença dos EUA no Brasil, Carlos Fico chega finalmente ao plano da Operação Brother Sam. O texto do plano estabelecia que o governo dos EUA devesse manter-se em contato com conspiradores brasileiros de forma clandestina, e ainda apontava os militares como únicos atores capazes de mudar o então regime.

O plano desenhava inúmeros cenários diferentes e atrelados à estes linhas de ação como “no caso do golpe e da irrupção de um conflito entre eventuais forças legalistas e revoltosos, o plano afirmava a desejabilidade da formação de um governo alternativo pelas ‘forças democráticas’” (FICO, 2008, p. 91). A linha de ação que desenhou um cenário de intervenção soviética ou cubana no Brasil estabelecia a força-tarefa naval que viria a ser chamada de Brother Sam. O temor dos EUA com relação à Goulart era de que este estaria preparando um golpe para estabelecer no Brasil uma ditadura peronista, o que levaria o país ao comunismo.

Fico traz à tona um novo dado quanto a Operação Brother Sam: a de que o General de Brigada José Cintra estava também envolvido na operação, a qual se acreditava não haver presença brasileira.

Com o conhecimento de que os equipamentos militares brasileiros seriam insuficientes para uma possível intervenção no país, o embaixador Gordon, sugeriu ao seu governo o envio de armas de forma clandestina feito durante a noite por um submarino, sua intenção não foi levada a sério pelo governo dos EUA, mas Gordon defendia suas idéias advogando a possibilidade de o Brasil tornar-se comunista. Suas avaliações e a ameaça de uma ditadura peronista em terra brasileira culminaram na Operação Brother Sam que contava com uma estrutura exagerada, contando com porta-aviões, contra torpedeiros e navios petroleiros. A força tarefa-naval foi desmontada já que o futuro presidente Castelo Branco avisou a embaixada dos EUA de que não era necessário tal apoio logístico. Curioso notar também a preocupação dos EUA com relação as despesas com a retenção do petroleiro, no fim o Brasil escapou de pagar a dívida.

Voltando as disputas de memória, o silêncio na saída de cena de Goulart pareceu banir da memória nacional seu nome e nem sua morte fora do Brasil serviria para cristalizar sua lembrança.

No terceiro capítulo Carlos Fico traz a questão da rapidez com que os EUA reconheceram o governo de Mazzilli depois do golpe e ainda o cuidado com que tiveram para que a comunidade internacional não recebesse tais notícias de forma negativa, fazendo circular uma idéia de continuidade do governo civil, e o Brasil, por sua vez, buscava o reconhecimento dos demais países, onde só não obteve êxito com o governo venezuelano, mantendo com este somente relações diplomáticas. A dificuldade do reconhecimento do novo regime em países como Uruguai, México e Costa Rica também são elencadas pelo autor.

Destaca-se ainda a ênfase do autor a este momento onde o Brasil começa a sofrer a maior interferência dos EUA na política interna e as discussões em torno das tentativas de amenizar o impacto do Ato Institucional n° 1 (AI-1), que apesar de todas as arbitrariedades, o novo regime brasileiro contou com o apoio financeiro, político e militar dos EUA.

A aproximação dos dois países é ainda retratada por Fico através da amizade entre Castelo Branco e Walters. Outra evidência deste apoio aos EUA foi a disposição de Castelo Branco em ajudar na questão cubana, “para a deposição do regime de Castro", além de também o desejo de apoiar os EUA enviando tropas para o Vietnã. Este apoio militar só ocorreu com a invasão da República Dominicana, ainda com a desculpa de um combate contra a ameaça comunista.

A aproximação entre Brasil e EUA mudaria de rumo após o AI-2, é o que Fico chama de divisor de águas. Para os EUA tamanha aproximação só aumentaria a sentimento de antiamericanismo.

A proposta do autor, em demonstrar o apoio do Brasil aos EUA, além de esclarecedora ao trazer as diversas situações envolvendo os dois países, foi tratada de uma maneira transparente e lúcida, sabendo ponderar ambos os lados.

Fico ainda retoma o afastamento do governo dos EUA como Brasil depois do AI-5 e da posse de Costa e Silva, que segundo o autor, foi vista pelos estadunidenses como o oposto de Castelo Branco. O que se percebeu foi um governante no mínimo questionador à intervenção dos EUA.

A aproximação que existiu no período de Castelo Branco também passou a ser visto pelos EUA como prejudicial na relação com o Brasil, uma das providências tomadas foi à redução do quadro de funcionários estadunidenses no Brasil. Porém para continuar na sua campanha contra o antiamericanismo no Brasil, os EUA passaram a investir na imprensa, sempre advogando contra o comunismo.

Ainda no quarto capítulo destaca-se a agitação de 1968: o planejamento do assassinato de Carlos Lacerda, protestos do movimento estudantil, atentados a bomba, as pressões da linha dura que decretou ainda neste ano o AI-5. O governo dos EUA que já se mostravam reticentes quanto à política repressora brasileira, após o decreto do AI-5 suspendeu todas as ajudas “que pudessem caracterizar apoio à ditadura militar”. (FICO, 2008, p. 204)

O contexto brasileiro durante o AI-5 trouxe para os EUA o complicador do receio da opinião pública internacional num apoio à uma ditadura repressora, porém concomitante à isto, os EUA demonstravam interesse com os negócios estadunidenses no Brasil.

Ainda há espaço para as agitações durante a gestão do presidente Nixon nos EUA, como os casos de seqüestro de embaixadores estadunidenses no Brasil.

O que fica perceptível neste penúltimo capítulo foi o olhar cuidadoso dos EUA no Brasil, especialmente no detalhado estudo encomendado pelo governo estadunidense feito durante o governo Costa e Silva sendo concluído somente no mandato Médice.

O último capítulo intitulado “Brasil e EUA entre o milagre e a tortura” trata no viés brasileiro do governo Médice, a forte repressão vivida naquele período e ainda o grande crescimento econômico.

A forte presença dos EUA continua evidente especialmente no investimento privado no Brasil. “Portanto a postura pragmática dos EUA em relação à ditadura militar considerava tanto a realidade do regime brasileiro quanto os interesses econômicos norte-americanos”. (FICO, 2008, p. 239)

O grande medo por parte do governo dos EUA em ver o Brasil transformado em uma grande Cuba é ponto essencial para que se compreenda a intervenção do governo estadunidense no Brasil.

O livro de Carlos Fico vem se unir à bibliografia sobre a ditadura militar brasileira, e terá lugar destacado devido à sua qualidade. Seu texto é convincente ao instigar ainda mais o leitor à refletir sobre este marcante período da república brasileira. Além de não se mostrar tendencioso, ponderando os lados, as motivações de cada governo e cada governante, e assim, finalmente dando margem ao seu leitor à uma compreensão mais lúcida sobre o assunto


Referências


FICO, Carlos . O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. O governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.


MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O lado cômico da crise: caricaturas sobre Goulart e seu governo comprovam força do riso como arma política. In: Revista Nossa História. Ano 1/nº 5, março/2004




3 comentários:

  1. Mari esqueci esse texto hoje em casa e o Alexandre vai discuti-lo. Ficou ótima a resenha, gratidão por compartilhar.

    Letícia Gondim

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